Fungos resistentes avançam silenciosamente: OMS detecta ameaça global em infecções da corrente sanguínea
Primeiro estudo mundial padronizado de vigilância revela resistência antifúngica em 13,6% dos casos de candidemia e expõe fragilidades dos sistemas de monitoramento em países de baixa e média renda

Imagem: Reprodução
A resistência antimicrobiana já é reconhecida como uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. Agora, um novo estudo coordenado pela Organização Mundial da Saúde (World Health Organization) mostra que essa crise também avança entre os fungos patogênicos. Publicada nesta terça-feira (23), na revista científica eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, a pesquisa apresenta os primeiros resultados do programa global de vigilância GLASS-Fungi e revela um cenário preocupante: mais de 13% dos fungos do gênero Candida isolados em infecções da corrente sanguínea já apresentam resistência a pelo menos um medicamento antifúngico.
O trabalho reuniu dados de 3.447 pacientes com candidemia — infecção invasiva causada por fungos do gênero Candida — atendidos em 301 centros de vigilância distribuídos por 13 países entre 2017 e 2021. A investigação foi liderada por Daniel Marcano Zamora, do Departamento de Resistência Antimicrobiana da OMS, em colaboração com especialistas de instituições da América Latina, Europa, África e Ásia.
“Este estudo demonstra que é possível implementar uma vigilância padronizada global para infecções fúngicas invasivas, mas também evidencia importantes lacunas de infraestrutura e capacitação que precisam ser enfrentadas”, afirmam os autores.

Distribuição de espécies de Candida a partir de dados piloto do GLASS-FUNGI, 2017–2021. GLASS, Sistema Global de Vigilância da Resistência e Uso de Antimicrobianos.
Uma ameaça invisível que cresce nos hospitais
As espécies de Candida estão entre os principais agentes de infecções hospitalares graves. Quando alcançam a corrente sanguínea, podem provocar falência de órgãos e morte, especialmente em pacientes internados em unidades de terapia intensiva, recém-nascidos, idosos e pessoas imunossuprimidas.
Entre os casos analisados, a espécie mais frequente foi Candida albicans, responsável por 37,6% das infecções. Em seguida apareceram Candida parapsilosis (21,5%), Candida glabrata (20%) e Candida tropicalis (12%).
A distribuição, contudo, variou significativamente entre as regiões do planeta. Enquanto C. albicans predominou nas Américas, Europa e África, a espécie C. tropicalis respondeu por quase metade dos casos registrados no Sudeste Asiático, alcançando 45,8% das infecções.
Os dados também identificaram a presença de Candida auris, fungo considerado prioridade crítica pela OMS devido à sua capacidade de resistir a múltiplos medicamentos e provocar surtos hospitalares de difícil controle. Embora tenha representado apenas 0,6% dos isolados analisados, os pesquisadores alertam que sua disseminação mundial tem aumentado rapidamente nos últimos anos.
Resistência preocupa especialistas
O dado mais alarmante do estudo foi o perfil de resistência aos antifúngicos.
Entre os isolados submetidos a testes de sensibilidade, 13,6% apresentaram resistência a pelo menos um medicamento antifúngico amplamente utilizado.
O destaque negativo ficou para Candida parapsilosis. Quase um terço das amostras dessa espécie — 29,7% — mostrou resistência ao fluconazol, um dos antifúngicos mais prescritos no mundo para tratar infecções invasivas.
Segundo os autores, o resultado confirma observações recentes de surtos hospitalares de C. parapsilosis resistente em diversos países.
“O aumento da resistência ao fluconazol em Candida parapsilosis representa uma preocupação séria e reforça a necessidade de monitoramento global coordenado”, destacam os pesquisadores.
A situação é especialmente preocupante porque o fluconazol é considerado um medicamento de primeira linha em muitos sistemas de saúde, sobretudo em países com recursos limitados.
Quem são os pacientes mais afetados?
A análise epidemiológica mostrou que os grupos mais vulneráveis são os idosos e os pacientes críticos.
Pessoas com 65 anos ou mais representaram 28,1% dos casos. Outros 20,5% tinham entre 50 e 64 anos. Chama atenção também a elevada participação de bebês com menos de um ano de idade, responsáveis por 17,9% das infecções registradas.
Mais da metade dos pacientes era do sexo masculino (55,4%). Entre os casos em que a unidade hospitalar foi informada, as UTIs adultas responderam por 30,5% das ocorrências, confirmando que a candidemia permanece fortemente associada a ambientes de alta complexidade médica.
Desafio global de vigilância
Além dos resultados microbiológicos, o estudo teve como objetivo testar a viabilidade de incorporar infecções fúngicas ao Sistema Global de Vigilância da Resistência Antimicrobiana e Uso de Antimicrobianos (GLASS), principal plataforma internacional de monitoramento da OMS.

O projeto envolveu instituições de países como Brasil, Argentina, Índia, África do Sul, Espanha, Tailândia, Coreia do Sul, Croácia, Polônia, Peru e Estados Unidos. O Brasil participou por meio da Universidade Federal de São Paulo e do Federal University of Rio de Janeiro, contando com a colaboração do pesquisador Arnaldo Lopes Colombo, referência internacional em micologia médica.
Os pesquisadores identificaram obstáculos importantes para a expansão da vigilância. Entre eles estão a escassez de laboratórios especializados, dificuldades para realizar testes de sensibilidade antifúngica, limitações dos sistemas de informação e falta de financiamento contínuo, especialmente em países de baixa e média renda.
Um alerta para a próxima década
A OMS considera que a vigilância sistemática será fundamental para evitar que a resistência antifúngica siga a mesma trajetória observada com as bactérias resistentes a antibióticos.
Em 2024, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, os países-membros assumiram o compromisso de garantir que pelo menos 80% das nações tenham capacidade para monitorar a resistência em todos os patógenos bacterianos e fúngicos prioritários até 2030.
Para Daniel Marcano Zamora e seus colegas, o estudo representa apenas o primeiro passo. O objetivo agora é ampliar a rede de monitoramento para gerar dados representativos da realidade global e detectar precocemente novas ameaças emergentes.
A mensagem central do trabalho é inequívoca: enquanto bactérias resistentes ocupam o centro do debate sobre saúde global, os fungos resistentes avançam de forma silenciosa. Sem vigilância robusta, investimentos em diagnóstico e cooperação internacional, a próxima grande crise de resistência antimicrobiana poderá surgir de organismos que permanecem, em grande parte, fora do radar da saúde pública mundial.
Referência
Sistema Global de Vigilância da Resistência Antimicrobiana (GLASS) da OMS para monitoramento de infecções da corrente sanguínea causadas por Candida : resultados de um estudo demonstrativo. eClinicalMedicineVol. 97 104019 Publicado: 23 de junho de 2026 . Daniel Marcano Zamora, Sergey Eremin, Pilar Ramon-Pardo, Agustina Forastiero, Marcelo Galas, Daniel A. da Mattae outros. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.104019